quarta-feira, 13 de maio de 2009

PARTIDA, LARGADA, FUGIDA...

Desculpem-me, unus incomparabilis. Acho que vou ter de carregar as imagens à parte... Fica a seca do texto, a ver se dá para mandar para o Páginastantas...


DO LEVANTAR

Está certo. Será saudável deitar cedo e cedo erguer, mas acontece não me dar com ditados tão ao jeito do politicamente correcto. Prefiro noites e manhãs de preguiça, sendo verdade que semelhante e desbragado gosto não me impediu de crescer até ao meu definitivo e seco metro e quase noventa, perfeito para quem gosta das trail, motos também altas e esguias. O pior, já se sabe, é o famigerado vento. Aí, além da barraca, abana a máquina e abana o motard. Mas adiante. Desta feita, o nervoso miudinho acordou-me direito e a horas.
Bem cedo, lá estava à janela, a ver se a vista e a brisa da manhã me confirmavam a meteorologia do diz que disse na sala de profs, nos jornais do café e nos boletins da rádio, da televisão e da net. Perfeito. Nem frio nem calor, nem chuva nem o dito famigerado. Dia ideal para a prática da coisa. Fiz-me então ao duche, como um puto em plena aventura de férias e sempre a trautear uma versão impossível do “Born to be wild”. Acordei a mulher, claro, e tive de mudar para um registo do género assobio inaudível. As gatas, porém, dele se aperceberam à sua matinal maneira, de modo que foi com elas a atrapalharem-me o equilíbrio, miando-me às pernas a primeira ração do dia, que coloquei nas ancas e na base da coluna uns emplastros tipo “Leão”, embora mais modernaços. Enfim, a idade não perdoa, dizem, e a viagem seria para mais de 500 quilómetros. Fixe. Diante de tal prazer, nada como prevenir a mania de ser imune a achaques tais o reumático ou a ciática. Depois das referidas compressas autocolantes mergulhadas num anti-inflamatório especial de corrida, foi a vez das calças motard novinhas em folha hightec, não fosse o diabo tecê-las. Seguiram-se as Doc Martens, a t-shirt milu e logo uma cinta comprada na feira do supermercado, antes de pegar no velho blusão de cabedal negro, marcado de curvas e algumas quedas. Se a palavra saísse com “c”, diria muitas, nem que fosse por brincadeira. De qualquer forma, gosto de andar com eles, o par de botas cambadas e o blusão. Tal como as omissas com “c”, são sinal em tudo oposto à urgência em terminar este parágrafo, deselegante de tão longo e cheio de nada. As palavras são como as cerejas, diz o povo e quem o escreve, aliás aqui evidente. Teria o mesmo ficado bem mais curto e escorreito, se em vez do vestir tivesse descrito um striptease. Mas nem na estrada me gosto de expor assim tanto.

DA PARTIDA

Tinha tudo a postos desde a véspera: depósito cheio, pressão dos pneus controlada, transmissão lubrificada, óleo do motor no ponto certo e o resto a brilhar. Reconheço que os mosquitos e outros insectos suicidas não identificados colados na viseira e no capacete, na óptica e em toda a frente da moto, mais os salpicos do óleo da corrente a manchar os raios e a jante traseira, e ainda um pó de quilómetros a cobrir o que sobra, só podem dar à máquina e ao seu proprietário um inefável ar de puro e duro conjunto motard, sempre na estrada, sempre a rolar. Contudo, não resisto muito e depressa acabo por deixar o todo num brinco, apenas com os sinais da idade à mostra. Por ora, não há hipótese de trocar de menina, nem vontade de submeter o dono a um lifting ou outra qualquer cura de rejuvenescimento. E está bem assim, porque ambos são ainda bem capazes de romper muitas meias solas. Vamos lá, que se faz tarde.
Pois. Bastou aproximar-me da porta da garagem e logo as gatas desataram a miar de novo, sem entender a minha falta de atenção. Pus a moto na rua e deixei-a a trabalhar com o ar meio puxado. Enquanto o motor aquecia, dei-lhes a ração e a água limpa. Acabava de lhes mudar a areia, quando um incontornável “Vai-te lá embora, que ainda tenho sono!” me alertou para o roncar lá fora. Corri a pôr no lugar o ar, as rotações diminuíram até um ronronar surdo e constante, sem dúvida agradável, mas incapaz de calar outro “Ninguém pode dormir nesta casa!”, ouvido já de capacete posto, a ajeitar as luvas. Também tem destas coisas, a vida de motard.
Ficou a Luna por tratar, mas é cadelinha de quintal, capaz de sobreviver a água e muita sesta. Certo é tanto detalhe doméstico me ter impedido de ser o primeiro. O Martinho e o Rosa já estavam à porta da Escola. Presumo que este terá sido o mais madrugador, porque da última e ventosa saída ao “Chico Elias”, em Tomar, se esqueceu de acertar a mudança de hora. Vale que no Milu não há interferências ministeriais. Se as houvesse, ainda hoje o atraso lhe valeria a passagem de titular ao grau zero da docência, seja lá o que isso for, grau zero ou titular. Quanto ao Martinho, a pontualidade é reacção biológica. Tudo bem, alguma vez serei o primeiro, mau grado o hábito do deitar tarde e tarde erguer. Por falar de vícios, eu e o Rosa aproveitámos as ausências para uma primeira bica e um segundo “preguinho no caixão”, como gosta de lembrar o Martinho.
Apagava eu a beata, e eis que chega o Valentim e depois o Armindo e a seguir o Carlos, quando já um de nós arrancava para o procurar. Penduras não havia. O grupo estava completo, com o Ismael ao sol de Vila Real de Santo António e o Belmiro em casa, a recuperar do mais recente regresso a 200 km/h, a bordo da BMW 1150 RT do Martinho, que assim procurava fugir à noite, pois dessa vez acabara por ficar só com um par de óculos escuros. Tínhamos Portalegre, Marvão e o restaurante “O Martinho” no horizonte, com as ruínas romanas de Ammaia guardadas para depois do repasto. A partida estava apontada para as nove horas, mas entre o vai-se por aqui e o segue-se por ali, o tempo foi correndo em ponto morto, comigo a dar conta das teias de aranha e dos pneus meio ressequidos da Honda Africa Twin com que o Armindo se tem feito à estrada, enquanto chega e não chega o alternador para a sua Suzuki, o mecânico é que sabe disso. Tenho agora a F650 calçada com pneus de confiança e bem me posso, portanto, dar ao luxo de brincar com ele, que se está nas tintas. Todas as curvas são alegria, desde que o veículo tenha duas rodas, motor adulto e dê para andar.

DA LARGADA

Entre propostas do gps do Martinho e verificações no mapa do Carlos, às dez e qualquer coisa lá estávamos todos de primeira engatada, pé direito no chão, mão esquerda a segurar a embraiagem e a outra a enrolar contida, só pelo prazer do som. Bute lá, alcateia! Vrruuummmm... A21. A falta que tenho de passar em Alcainça! A8. CREL, ou lá como se chama. A1. Vila Franca de Xira. Ao passar a ponte de piso franco e seguro, lembro-me sempre da Kawasaki 125 que tantos dias aqui me trouxe, nos idos de 80, quando fui parar à Escola Preparatória de contentores esverdeados que ficava lá em baixo, junto aos pilares. Saudades? Nem por isso. Agora só as tenho do que está para vir. Recta do Cabo, ruínas da Estalagem do Gado Bravo, virar à esquerda. Lezíria já conhecida desde a ida a Almeirim. Seguimos então em ritmo calmo e por terrinhas de nomes apelativos como só os que se encontram na rota dos vinhos, dos cavalos e dos touros. O Martinho tê-los-á registado. Eu não. Fiquei com os olhos cheios de cegonhas, coelhos, crianças a acenar e vitelinhos a fugir à nossa passagem. Disseram-me, depois, que houve uma lontra que me escapou à retina, e até acredito nisso...
Rolávamos agora pelo concelho da Chamusca, com o Carlos a tentar minimizar os inconvenientes do mau piso, o Valentim ansioso por uns torresmos e um branquinho numa tasca à mão, e eu aflito por demonstrar haver pelo menos um saber-fazer que dois ou três portugueses dominam sempre em grupo, desde que um comece o serviço. O Rosa seguia na boa, de olhos abertos ao passar diante de uma enorme carvoaria à moda antiga, vestígio arqueológico de uma indústria em vias de extinção, agora que de Bruxelas nos dizem que é cancerígena a pele do bom franguinho assado na brasa. O Martinho, esse, deve ter-me lido a aflição. Parou pouco depois, no Pego da Curva, não só por via da referida e nacional competência masculina mas sobretudo para nos mostrar a aldeia, abandonada há anos no meio do nada, cheia de memórias e solidão.
Satisfeita a necessidade e tiradas umas fotos, decidimos, em dois dedos de conversa, que estava na hora de dar razão ao Valentim. Portalegre ainda distava, um breve aperitivo cairia que nem ginjas. Arrancámos, sempre em ritmo alentejano, mas nada de tascas à mão, nem quando passámos pela Herdade de Mata-Fome, nome mesmo a propósito, que o Carlos me recordou mais tarde. Aí, seguia eu atrás do Martinho e pelo retrovisor só via os médios do Valentim, que se juntou a nós quando parámos num cruzamento com a N244: à esquerda, já não me lembro, à direita, Ponte de Sor e Montargil, em frente, o almoço, e atrás, ninguém!
– Eh, pá! Então há que tempos que venho a buzinar, não ouviram? É que eles desapareceram... – diz o Valentim.
– Pois, incomparabilis companheiro, isto de ouvir buzinadelas de moto em andamento tem muito que se lhe diga... – digo eu agora – Quando é necessário, o melhor é fazer sinal de luzes...
Ficámos apreensivos. O Martinho deu meia volta e nós deixámo-nos estar à sombra, de cigarrito na mão e a fotografar cegonhas. Passado um bocado, surge o Rosa. Adivinhem quem é que tinha furado o pneu traseiro... O lucidus da Goldwing largou em direcção a Ponte de Sor, a ver se encontrava solução, enquanto nós continuámos a aguardar pelos restantes unus. Lá apareceram, por fim, com o Armindo de pé, a rolar devagarinho, tentando pôr o máximo de peso na roda da frente da Africa Twin. E agora? É que com rodas de raios como as que têm as trail que se prezam não há qualquer kit que desenrasque um furo. Tem de se fazer tudo à mão. Ainda por cima, no caso em apreço, era mesmo preciso um pneu novo. E agora? Bom, faz-se assim, faz-se assado ou cozido, todos com o estômago a reclamar sustento. Ali perto havia uma herdade, talvez houvesse gente, talvez a menina ferida lá pudesse ficar, protegida. Tivemos sorte. Além dos cavalos, havia gente, por sinal simpática. Lá ficou a moto, ao abrigo de um telheiro, esperando por melhores dias.
Resolvido o inesperado, ficou por acertar-se o que não se esperava. Dado o adiantado da hora, desistimos de Portalegre. Contactado o Rosa, combinámos encontrar-nos em Montargil. Primeiro, era necessário um bom almoço, depois logo se veria. Seguimos, com o Armindo à pendura do Martinho, e só parámos junto a um restaurante à beira da estrada, onde já estava estacionada a Goldwing, rodeada de alguns curiosos. Sentámo-nos então à mesa e à conversa, esfomeados e de olhos a brilhar.

DA FUGIDA

Varreu-se-me da memória o nome do restaurante, mas no fim das migas de espargos com entrecosto, do ensopado de enguias, do pijaminha de doces, dos jarros de tinto da casa e dos afins em casos tais, o Valentim decidiu seguir viagem no trono da Goldwing, sinal de que a refeição lhe caíra bem. E a nós idem. Sorte teve o Armindo, que continuou viagem na Honda Deauville, a curtir curvas como deve ser. Descanso na barragem, com a GNR a alertar-nos para cuidarmos dos parcos haveres, que ali, às vezes, acontecem cenas do arco-da-velha. Enfim. Breve concílio à sombra de anedotas inenarráveis, paragem na primeira estação de serviço da nacional não-sei-quantos, só para dar de beber às montadas. E vrruuummmm... até Mora, onde nos voltámos a separar, porque o Armindo queria comprar também não sei o quê, parece que qualquer coisa típica e alentejana, ele lá sabe de guloseimas. Telemóvel puxa telemóvel, reencontrámo-nos adiante e continuámos, sempre em nacional agradável e sempre a abrir quanto baste. Impecável. Só parámos num determinado supermercado do Porto Alto, onde se vendiam, baratos, gps quase topo de gama, com a Europa toda na voz de uma menina castelhana.
E pronto. A partir daí, só Mafra nos restava. Fez-se a recta do Cabo, a A1, a A8 e etc. No fim, nem 400 km. Eu e o Armindo ainda fomos a casa do Valentim, beber um copo e ver o Sporting jogar mal e empatar em Coimbra. Para o ano haverá mais, falando agora do campeonato da segunda circular. Porque, quanto ao resto, pelo meio dessa noite ficou guardada uma tristeza muito grande. Parece que se programa uma ida ao sul, a ver se os cabos estão todos lá, de Espichel a Sagres. Vens connosco, Zé Miranda? Boas curvas!


3 comentários:

Armindo S. disse...

Escrita de fazer inveja (que defeito tão feio)de tal modo que me apetece propor-te desde já para escrivão-mor da MILU com direito a grão louvor e torre de espada à cintura ou lá o que é. Esqueceste uma coisa Adriano: para que a minha despesa não ficasse tão ampla a solidariedade da MILU decidiu gentilmente oferecer-me o almoço. Obrigado a todos por tão grande amizade, ser MILU com vocês ao lado é um grande prazer. Peito ao vento, caminhos do meu país atesto que todos são veros UNUS. Longa vida (nada como leitinho - não é Martinho? ou será sumo?) ao Motus Incomparabilis. Para os Lucidus mais uma rodada pois o que é preciso é iluminar a estrada.

mar disse...

Dá gosto a tua escrita, mas se vais enviar para o páginas tantas...às tantas dão pelos "erros".
Talvez hightech em vez de hich tec (?). Acho que a ideia inicial era mesmo "O Martinho". Estalagem do Gado bravo e não restaurante gato preto, em que estavas tu a pensar. Eu sei que a marmota te vinha a calhar mas foi mesmo uma lontra. Deduzo que adores vitela barrosã (eu também)mas desistimos de Portalegre e não de Montalegre.
Bom fim de semana

Adriano disse...

Grande Martinho!
Mto obrigado. Não sei se a coisa vai para o dito, mas as tuas correcções ficam aceites desde já. Entre outras qualidades, revelam o que já te disse: crónica de viagem é contigo.

Vá. Vou editar o tx no que me referiste.

Boas Curvas para ti e nós, Incomparabilis.

PS.: Começo a ficar como na ponte de piso amenteigado: atrapalhado. A escrita é escorregadia, não sou nenhum Helder Rodrigues na sua Yamaha WR450.

 

interesting